quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Xavier Beauvois

O que esperar da Mostra de Cinema de SP


Está aberta a temporada de caça… ao filme! Assim como os estudantes aguardam ansiosamente pelo mês de julho e grande parte da população com emprego fixo espera o mês de janeiro, cinéfilos paulistanos anseiam pelo mês de outubro, mês perfeito para férias, onde pode-se viajar para diversos lugares, conhecer culturas, aprender línguas, sonhar acordado e observar o mundo com outros olhos. É neste período de baixa temporada nas agências de viagens que é realizada a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que neste ano chega à sua 34ª edição oferecendo mas de 400 destinos para quem quiser se aventurar pelo planeta dentro de uma sala escura. A partir desta quinta, 21 de outubro, com a exibição de “O Estranho Caso de Angélica”, de Manoel de Oliveira, para convidados, até o dia 4 de novembro (com direito a aguardada repescagem na semana seguinte), a 34ª Mostra de Cinema de São Paulo abrigará fanáticos, curiosos, passantes e, principalmente, amantes do cinema compulsivos, que sofrem horas e horas calculando horários, conciliando tabelas e sofrendo na escolha de títulos obrigatórios exibidos em horários incompatíveis.  Mais do que diversão e enriquecimento cultural, a Mostra é uma oportunidade de se conhecer novos diretores, descobrir astros, lançar tendências, criar conceitos, formar opiniões, rever antigos sucessos e matar a curiosidade sobre o que está acontecendo fora do circuito comercial. São curtas, médias e longas metragens de diferentes nacionalidades, diversos gêneros, variadas estéticas e múltiplos formatos exibidos em cinemas, museus, centros comunitários e até mesmo na rua – isso porque, no domingo acontece a exibição especial da cópia restaurada de “Metrópolis”, o clássico de Fritz Lang de 1927, apresentado ao ar livre, no gramado do auditório do Ibirapuera.  Tem cinema pra todo mundo e pra todos os gostos. De cineastas consagrados (Wim Wenders, Woody Allen) a novatos promissores (Xavier Dolan) passando por diretores já consolidados como cult (Sofia Coppola) e atores que mudaram de lado da câmera e se lançam como cineastas (Louis Garrel, Diego Luna, Mathieu Amalric). Aos desbravadores, filmes de países que muita gente sequer sabe localizar no mapa como Sri Lanka (“Karma”, de Prasanna Jayakody), Chade (“Um Homem que Grita”, de Mahamat Saleh Haroun), Estônia (“Disco e a Guerra Atômica”, de Jaak Kilmi e Kiur Aarma) ou Uzbequistão (“On the Riverbank Where the Childhood Was Left”, de Sabir Nazarmukhamedov).  Para quem se baseia em referências, filmes premiados mundo afora marcam presença como “Poesia”, de Lee Chang-dong (melhor roteiro em Cannes), “Se Eu Quiser Assobiar, Eu Assobio”, de Florin Serban (grande prêmio do júri em Berlim) e o comentadíssimo “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Vidas Passadas”, de Apichatpong Weerasethakul, Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano.  Figurinhas carimbadas como Amos Gitai, Abbas Kiarostami, Manoel De Oliveira, Takeshi Kitano e Susanne Bier apresentam com suas mais recentes obras. Mas também há títulos curiosos como “Bi, Não Tenha Medo” ou “Uma Mulher, Uma Arma e uma Loja de Macarrão”, que chamam a atenção e incitam o desejo de adquirir o ingresso sem ao menos saber ao certo do que se tratam – o primeiro é sobre uma criança vietnamita chamada Bi e o segundo é o remake de “Sabor de Sangue”, primeiro filme dos irmãos Coen, dirigido pelo mestre Zhang Yimou e passado na China imperial.  Arriscar, na Mostra, é um verbo constante e necessário. Para aqueles que preferem evitar surpresas ou não conseguem aguardar a estréia comercial (que em alguns casos ocorrem logo após o fim do festival), títulos como o nacional “VIPs”, de Toniko Melo (vencedor do Festival Do Rio), “Machete”, de Robert Rodriguez, ou “O Garoto de Liverpool”, de Sam Taylor-Wood, sobre a adolescência de John Lennon, são garantia de sessão lotada. Para quem faz parte do time que ficou indignado com a escolha de “Lula, O Filho do Brasil” para uma vaga no Oscar 2011, a Mostra traz 19 dos 65 filmes que concorrem às cinco vagas na cerimônia do próximo ano. Entre eles, os comentadíssimos “Fora da Lei”, de Rachid Bouchareb (Argélia), “Do Amor e Outros Demônios”, de Hilda Hidalgo (Costa Rica), “Homens e Deuses”, de Xavier Beauvois (França) e “A Primeira Coisa Linda”, de Paolo Virzi, candidato da Itália que agradou o público do Festival do Rio. Termômetro do cinema nacional, a Mostra também traz cerca de 60 títulos brasileiros que traçam um panorama do que chegará (ou não) às telas em breve como “Somos Todos Iguais”, de Eduardo Sodré, “Ainda Agarro Esta Vizinha”, de Pedro Carlos Rovai, “Tocaia no Asfalto”, de Roberto Pires e “Lope”, de Andrucha Waddington.  Queridinhos do público, os representantes latinos comparecem em massa com diversos títulos vindos da Argentina, México, Cuba, Venezuela, Espanha, Chile, Colômbia e batem de frente com outros xodós da platéia como os franceses, asiáticos e iranianos. Fica cada vez mais difícil escolher a programação baseada nos países de origem das obras.  Algumas ausências sentidas, como “A Solidão dos Números Primos” (de Saverio Costanzo), “Homme au Bain” (de Christophe Honoré), “Four Lions” (de Christopher Morris) e “Black Swan” (de Darren Aronofsky) deixaram internautas desolados, mas, ao mesmo tempo, as confirmações de “Almas Silenciosas” (de Aleksei Fedorchenko), “Octubre” (de Daniel e Diego Vega) e “Clube do Suicídio” (de Olaf Saumer) fizeram tantos outros vibrarem de entusiasmo.  Os mais corajosos não se importarão em ficar mais de 3, 4 ou mesmo 5 horas em uma única sessão: sim, há filmes como “Me Alugo pra Sonhar” (de Ruy Guerra, 330 minutos) e “Mistérios de Lisboa” (de Raul Ruiz, 266 minutos) que vão muito além do amor ao cinema – revelam-se verdadeiras provas de resistência – além, claro, do orgulho como recompensa: quem conseguirá superar nas rodinhas específicas de discussão cinéfila alguém que viu “Até o Fim do Mundo”, de Wim Wenders com seus 280 minutos de duração? As longas filas são encaradas como oportunidade de fazer novas amizades, trocar informações sobre quem-viu-o-quê, coletar dicas e ocasionalmente se livrar de roubadas. O cansaço mesmo só será sentido no final de tudo. Como toda viagem que se preze, o tempo é utilizado desmedidamente, na tentativa de aproveitar ao máximo tudo que a mente puder acolher. Aproveite a paisagem internacional e faça boa viagem.

Fonte: Uol e Pipoca Moderna - Fabricio Ataide.

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